Quem são os embaixadores do agronegócio? Conheça o trabalho dos adidos agrícolas

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13/10/2020

Nas últimas décadas, o mundo se tornou uma rede complexa de relações comerciais entre diversos países. Esse movimento de aceleração da globalização econômica foi decisivo para o Brasil se tornar um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo. Só que vender ao exterior é mais complexo do que fornecer aos mercados locais. É nesse ponto que entram os chamados adidos agrícolas, espécie de representantes do agro brasileiro no mundo.

Para entender essa mudança de percurso que ocorreu na agropecuária brasileira e a contribuição dos adidos nesse panorama, é preciso voltar ao Brasil da segunda metade dos anos 1990. O ranking de venda ao exterior do agro naquela época era formado por complexo soja, produtos florestais, café, complexo sucroenergético, fumo e carnes. A movimentação total chegava a US$ 23,3 bilhões. Após mais de 20 anos, em 2019, o valor deu um salto de 314% e bateu US$ 96,8 bilhões. O complexo soja se manteve na liderança, seguido por carnes, produtos florestais, milho, complexo sucroenergético, café, fibras e produtos têxteis. Somente as carnes, por exemplo, movimentaram US$ 1,5 bilhão em 1997, com salto para US$ 16,6 bilhões em 2019 (+947%). A soja também cresceu significativamente, de US$ 5,5 bilhões para US$32,6 bilhões (+486%). Tudo isso com participação direta do Paraná, maior produtor de frango do país, um dos maiores de suínos e o segundo maior de soja.

Para consolidar essa reviravolta foi preciso gastar muita sola de sapato, papel de passaporte e investimento financeiro por parte de entidades representativas de produtores rurais e de outros elos da cadeia produtiva. Muita energia foi despendida para o Brasil figurar como importante player nas negociações internacionais. A união do setor produtivo priorizou duas frentes: fazer os ajustes necessários internamente, da porteira até o porto; e concretizar os negócios lá fora.

Diagnóstico do cenário

Nesse sentido, é preciso olhar para o papel de entidades como a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP), que sempre acompanhou de perto as negociações para o acesso a novos mercados. Muitos dos levantamentos, relatórios, reuniões e negociações que abriram portas às empresas do Estado tiveram como pontapé inicial prospecções feitas sob a batuta da entidade.

Antonio Poloni, hoje assessor da FAEP, ocupou a função de secretário estadual de Agricultura e Abastecimento nos anos 1990. Segundo ele, aquele foi um período intenso, de derrubada de barreiras sanitárias, promoção dos produtos agropecuários brasileiros e de conquista de novos mercados. Tudo isso por meio de missões, viagens e reuniões, muitas delas com a presença da FAEP. Em algumas ocasiões, no entanto, as comitivas brasileiras encontravam problemas em abrir portas ao diálogo.

“Em uma das viagens, estivemos na União Europeia. Fizemos uma reunião com 40 importadores de soja na embaixada do Brasil, em Paris [França]. Tivemos dificuldade de condução desse processo porque, até então, não tinha um representante brasileiro do agronegócio na embaixada. A partir de tropeços, acendeu a necessidade de apoio, alguém que nos ajudasse a organizar esse processo, para que as viagens e contatos gerassem ainda mais resultados”, lembra Poloni.

Necessidade de mudança

Com base nisso, a FAEP foi protagonista em colocar em pauta a necessidade de mudar a forma de diálogo do agronegócio brasileiro com outros países. O tema foi colocado ao governo brasileiro oficialmente em uma reunião entre a entidade paranaense e Reinhold Stephanes, então ministro da Agricultura (gestão 2007/10).

“Quase todos os ministros que me antecederam tentaram, mas a reação do Itamaraty era muito forte. Quando eu assumi o ministério, pensei: ‘agora é o momento’. Mas tive que convencer o presidente da república, afinal eu estava criando uma nova carreira”, recorda Stephanes.

Na década de 1970, quando Stephanes trabalhou em Brasília como funcionário do Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa), já havia identificado que os principais países com quem o Brasil mantinha relações tinham adidos agrícolas nas respectivas embaixadas. “Ainda não éramos essa potência agrícola que somos hoje, mas eu questionava por que a gente não tinha adidos”, lembra.

Decreto publicado

A função de adido agrícola foi aprovada pelo Decreto 6.464, publicado no Diário Oficial da União, em maio de 2008, após negociação entre o Mapa, por meio da Secretaria Executiva, e o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG).

Os adidos surgiram apenas em 2011, mas logo começaram a ajudar o agronegócio brasileiro. Em 2010, antes de esses profissionais colocarem a mão na massa, o Brasil movimentou US$ 76 bilhões em produtos do agro. Já em 2011, o resultado foi de US$ 94 bilhões, aumento de 24%.

“Criamos num primeiro momento 12 [adidos]. Hoje são 24. Isso significa que os ministros que me sucederam viram que se trata de algo importante”, avalia Stephanes. “A partir da criação dos adidos agrícolas, a coisa mudou completamente. Fomos em uma missão à Rússia e quem organizou a nossa agenda, fez os contatos, foi o adido. Até porque eles são pessoas de carreira, que conhecem a fundo o agro brasileiro e mergulham na cultura, hábitos, especificidades de consumo, conjuntura econômica e outros detalhes locais importantes às negociações. É uma referência no exterior que nós temos. Foi uma das grandes vitórias com a participação da FAEP”, destaca Ágide Meneguette, presidente do Sistema FAEP/SENAR-PR.

Olhos dos adidos

A FAEP participou do 2º Encontro dos Adidos Agrícolas Brasileiros, em setembro deste ano, com os adidos. Ao todo, 21 profissionais fizeram resumos dos principais assuntos em discussão envolvendo produtos do agronegócio nos países em que atuam: Rússia, África do Sul, Canadá, China, Cingapura, Tailândia, Peru, Itália, Colômbia, Bélgica, Estados Unidos, México, Coreia do Sul, Indonésia, Japão, Argentina, Vietnã, Marrocos, Egito, Reino Unido e Índia.

Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico (DTE) da FAEP, que acompanhou os encontros com cada adido, tratou de pontos centrais da relação do Paraná com os países, além de avaliar oportunidades e prospectar novos negócios. “Nosso interesse maior foi construir uma visão panorâmica das nações, com as principais dificuldades para acessar os mercados, possíveis adequações que nossa cadeia produtiva precisa promover, além de oportunidades para o agro parananese”, explica Ferreira.

Algumas conquistas por meio de atuação dos adidos

Apetite asiático

O continente asiático tem uma alta demanda pelos produtos do agronegócio nacional. O principal parceiro comercial, a China, é destino de 44% de tudo que o Paraná exporta. Apesar disso, os compradores chineses têm uma pauta pouco diversificada, centrada no complexo soja, carnes e produtos florestais. Mesmo assim, é um país estratégico do ponto de vista comercial.

Depois de enfrentar uma crise sanitária com focos de Peste Suína Africana e, posteriormente, ter sido o epicentro da pandemia do novo coronavírus, o gigante asiático foi às compras para repor seus estoques de alimentos. Isso fez diversos produtos da pauta de exportação brasileira baterem recordes de embarques neste ano. As exportações de açúcar, por exemplo, cresceram 3.000% nos primeiros oito meses de 2020, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Do outro lado do Mar Amarelo está a Coreia do Sul, quinto principal cliente do Paraná. Com uma pauta de importação centrada no farelo de soja e nas carnes, 80% das importações coreanas de frango vêm do Brasil. Uma grande oportunidade que se reserva ao agro paranaense neste mercado é a provável liberação do comércio de suínos após o Estado obter o certificado internacional de área livre de febre aftosa sem vacinação. Hoje, a Coreia importa este tipo de carne apenas de Santa Catarina, único Estado brasileiro que possui este status sanitário.

Trata-se de um mercado significativo. A Coreia do Sul é o terceiro maior importador de carne suína do mundo, além de ser um mercado que paga bem por produtos que se enquadram na qualidade demandada. Segundo o adido brasileiro no país asiático, Gutemberg Barone, apesar de ser bastante exigente nos critérios sanitários, a Coreia do Sul tem uma situação pior do que a do Brasil internamente. “Não tem nem status reconhecido junto à OIE [Organização Mundial da Saúde Animal], mas cobram dos outros”, explica. Além disso, nos últimos anos houve casos de febre aftosa nos rebanhos coreanos, que levaram as autoridades a sacrificar milhões de animais.

Segundo Barone, existem as oportunidades para abertura de novos mercados na Coreia do Sul para queijos, sorvetes e também para tilápia, setor em que o Paraná se destaca como maior produtor nacional.

Ao seguir mais para o Sul no continente asiático, o Vietnã aparece como 22º maior parceiro comercial do Paraná, com demanda centrada no complexo soja e na carne suína, que tem no Brasil seu principal fornecedor. Recentemente, o país habilitou duas plantas paranaenses para o fornecimento de aves, sendo uma em Cascavel (Oeste) e outra em Jaguapitã (Norte).

Entre 2019 e 2020, nossas exportações de carne suína para os vietnamitas cresceram 316%, passando de US$ 6 milhões para US$ 25 milhões. A explicação está em um surto de peste suína africana que reduziu os rebanhos daquele país. Atualmente, está sendo negociada a entrada de bovinos vivos e melões brasileiros no mercado vietnamita.

África das oportunidades

As oportunidades de negócio para o continente africano estão concentradas, especialmente, nos dois extremos do continente. No Nordeste, o Egito já é um parceiro comercial consagrado do Paraná – 26º principal comprador de produtos paranaenses. Em uma de suas missões internacionais, em 2019, a própria ministra da Agricultura, Tereza Cristina, esteve no Cairo para conversar com autoridades locais sobre possibilidades de novos negócios. Há a expectativa, inclusive, da abertura aos lácteos brasileiros.

Um dos maiores interesses dos egípcios está na importação de carnes. O frango paranaense é bastante competitivo na terra das pirâmides, mesmo havendo uma taxação de 30% para as operações envolvendo o alimento. Outro destaque nas proteínas animais é a demanda por bovinos vivos, para serem abatidos internamente seguindo as tradições culturais locais. Negócios nessas áreas têm especial potencial de crescimento a partir do reconhecimento do Paraná como área livre de febre aftosa sem vacinação pela OIE.

Na Costa Noroeste da África, o Marrocos desponta com potencial de gerar novos negócios, principalmente pelo seu ritmo firme de crescimento entre 3% a 4% ao ano. Apesar de ser apenas o 90º na pauta de exportações do Paraná, há oportunidades em produtos de maior valor agregado. Rações para animais de companhia, frutas frescas e cafés especiais estão no radar dos marroquinos. Com forte vocação turística e uma classe média emergente, itens mais sofisticados de alimentação têm tido forte pressão na demanda pelo país.

No Extremo Sul do continente africano, a África do Sul é o 30º principal comprador de produtos paranaenses, com destaque para as proteínas animais. Pesa contra, no entanto, o protecionismo. O frango brasileiro, por exemplo, precisa pagar tarifa de 62% para ingressar no país. Há uma negociação em curso para promover acordos de livre comércio entre o Mercosul e a União Aduaneira da África Austral, que une outros quatro países (Namíbia, Botsuana, Lesoto e Suazilândia), que pode abrir portas para novos negócios.

Europa e América do Norte

Com a assinatura do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, o agronegócio paranaense concentra expectativas em uma grande oportunidade para ampliar as exportações. Com a política de cotas e tarifas zero sobre 81,8% dos produtos agropecuários exportados pelo Mercosul, a estimativa é de que se abram mais portas para as proteínas animais, etanol e açúcar paranaenses. Em contrapartida, em um primeiro momento, os lácteos podem sofrer com o aumento das importações pelo Brasil. Após as fases de revisão jurídica e tradução, o acordo deve ser enviado para discussão entre os países-membros ainda em outubro deste ano. A previsão é que seja ratificado até o final de 2021.

Com a saída do Reino Unido da União Europeia, parte das expectativas se voltam aos britânicos. O setor de frutas desponta como uma grande oportunidade, assim como produtos regionais, orgânicos e com certificação sustentável. Ainda, há movimentação para abertura de mercado para carne suína, pescados, lácteos e ovos por meio de prelisting, ou seja, listas pré-autorizadas de estabelecimentos exportadores. Para os britânicos, a principal variável de compra é o preço, principalmente em relação às carnes.

Na América do Norte, o México aparece como 23º parceiro comercial dos paranaenses, com destaque para produtos florestais, seguido pelo complexo soja e carnes. No final do ano passado, o arroz brasileiro fez sua estreia no mercado mexicano, que domina a importação do produto na América Latina – o país compra mais de 800 mil toneladas de arroz por ano, o que corresponde a 80% do que são consumidos pelos mexicanos. Para a exportação do cereal pelo Brasil, há uma cota de 150 mil toneladas com tarifa entre 7,2% e 16,8%. O feijão também possui uma alta demanda de consumo no México, o que representa uma oportunidade interessante para o Paraná, maior produtor nacional do grão.

Ao Norte da fronteira, está o 2º maior comprador do Paraná, os Estados Unidos, cujas importações são centradas em produtos florestais, principalmente madeira, e café. De janeiro a agosto deste ano, as exportações paranaenses para os norte-americanos totalizaram US$ 513 milhões. Em relação à possibilidade de um acordo com o Mercosul, além da necessidade de pressão de empresas dos setores privados, há uma dependência muito grande do interesse político do Congresso norte-americano.

Principais atividades dos adidos

– melhorar condições de acesso de produtos do agro brasileiro nos mercados dos países e regiões em que atuam;

– prospectar novas oportunidades de negócio;

– fazer relatórios com análises sobre o mercado local e tendências de cada país;

– promover os produtos brasileiros do agro no mercado local;

– antecipar possíveis mudanças nas políticas sanitárias e fitossanitárias de outros países;

– indicar e facilitar contatos com especialistas, importadores e autoridades locais a brasileiros e a estrangeiros interessados em saber mais sobre nosso país.

Fonte: Decreto 6464 de 2008

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